Ensinaram-me que sou militar, e eu que sempre sonhei ser Polícia.
Mas no Orçamento de 2012, os Militares das Forças Armadas não irão ter os seus subsidios de férias e natal, saqueados pelos de S. Bento, e eu serei vitima desse roubo.
Os Militares das FA, mantêm os seus conjuges com plenos direitos no seu subsistema de saude, os nossos conjuges há muito perderam essa regalia.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Então ensinaram-me mal, não sou Militar.
Os Funcionários Públicos não receberão os seus subsidios no ano de 2012, eu também não. Se calhar sou funcionário publico?
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Lei n.º 59/2008
de 11 de Setembro
Aprova o Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas
(...)
Artigo 21.º
Trabalho nocturno
O trabalhador que tenha prestado, nos 12 meses anteriores à publicação da presente lei, pelo menos cinquenta
horas entre as 20 e as 22 horas ou cento e cinquenta horas
de trabalho nocturno depois das 22 horas mantém o direito
ao acréscimo de remuneração sempre que realizar a sua
prestação entre as 20 e as 22 horas.
(...)
SUBSECÇÃO II
Limites à duração do trabalho
Artigo 126.º
Limites máximos dos períodos normais de trabalho
1 — O período normal de trabalho não pode exceder
sete horas por dia nem trinta e cinco horas por semana.
2 — O trabalho a tempo completo corresponde ao período normal de trabalho semanal e constitui o regime
regra de trabalho dos trabalhadores integrados nas carreiras
gerais, correspondendo -lhe as remunerações base mensais
legalmente previstas.
3 — Há tolerância de quinze minutos para as transac-
ções, operações e serviços começados e não acabados
na hora estabelecida para o termo do período normal de
trabalho diário, não sendo, porém, de admitir que tal tolerância deixe de revestir carácter excepcional, devendo
o acréscimo de trabalho ser pago quando perfizer quatro
horas ou no termo de cada ano civil.
4 — O período normal de trabalho diário dos trabalhadores
que prestem trabalho exclusivamente nos dias de descanso
semanal dos restantes trabalhadores do órgão ou serviço pode
ser aumentado, no máximo, em quatro horas diárias, sem
prejuízo do disposto em instrumento de regulamentação colectiva de trabalho.
Não. Funcionário público não sou.
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo.
Trabalho noites, sábados, domingos e feriados, natal, páscoa e passagem de ano não tenho Horário de trabalho certo, nem tão pouco de referência, faço muitas horas extraordinárias sem receber mais por isso....e mantenho hoje praticamente o mesmo ordenado que auferia quando em 2003 aqui cheguei, 720€.
Não. Funcionário público não sou.
Em 2012 eu e os meus filhos perderemos o subsistema de saúde, e não vamos ser colocados na ADSE (subsistema de saúde dos Funcionários Públicos) , mas sim no SNS.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Então sou Polícia como sempre sonhei?
Vou onde nenhum Homem desejaria ir, sou o primeiro a chegar, a ver os mortos trucidados nas estradas, os miolos e intestinos nas valetas. Vou ao quarto onde o Pai matou o filho com um tiro de caçadeira, mesmo na cabeça para o libertar dos seus pecados, o cheiro é derrubante, miolos e sangue por todo o lado. Sou o Engenheiro, o Médico e o Doutor, que acorre ou incêndio, ao roubo, á violência doméstica. Sou eu que vou ás escolas, aos bairros de lata, aos bairros sociais, sou eu que estou á chuva e ao frio de madrugada na tua rua, para garantir que o teu sono é seguro.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."
Não Polícia não sou, os Polícias têm um horário de trabalho, tem direito à manifestação, ao sindicalismo. E eu não tenho direito a nada disso...porque sou Militar.
Sou Militar da GNR dizem eles, sou mão-de-obra barata, pau para todo o serviço, sou tapa buracos, sou o milagreiro da multiplicação, aquele que faz omeletes sem ovos.
Ganho menos à hora que a Senhora que faz a limpeza do Posto, tenho o dever da disponibilidade 24h, sou como Deus, descanso ao 7º dia, quando descanso...mas sou Humano, tenho mulher, filhos, família e amigos.
Sou GNR e ganho menos que os seguranças do Fórum Montijo, eles que quando actuam é a mim que chamam, sou GNR pago a minha farda, quando vou na rua as pessoas fogem de mim, baixinho (cada vez mais alto) dizem: " Ai vêm o cabrão!!!"
Pela Lei e Pelo Povo ensinaram-me, mas o Povo já não está comigo, e a Lei pelos vistos a mim não se aplica nos Direitos, apenas nos Deveres.
Por Lei, teria o direito a ser colocado na nova tabela remuneratória em janeiro de 2010, aguardo!
Por Lei, deveria ter sido promovido em Fevereiro de 2011, aguardo!
O Guarda ali do posto levou uma facada, esse Guarda que ganha menos que o puto que está na caixa do Modelo, saiu hoje do Hospital....o seu filho e a sua mulher, vão agora ao SNS pedir apoio psicológico, e o Guarda daqui a uns anos quando sentir dores na barriga outrora lacerada, levanta-se ás 5 da manha e vai para o centro de saúde, como os outros, porque o Guarda não é mais que os outros. É apenas um Guarda, que trabalha 8h descansa 8h e volta a trabalhar 8h, acumula (adia) folgas porque simplesmente não há pessoal que chegue para ele ter direito a esse luxo.
O Guarda, quem é ele afinal? Quem sou eu?
(chegou ao meu e-mail, por anónimo)
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